15 ex-colaboradoras do Avaí Kindermann — sendo 13 atletas, uma cozinheira e uma fisioterapeuta — ingressaram com uma ação na Justiça do Trabalho, solicitando o reconhecimento de vínculo empregatício, além do pagamento de salários atrasados, 13º salário, férias e FGTS. As autoras ainda pedem a responsabilização pessoal de quatro membros da diretoria do clube.
Além disso, o processo também requer o custeio de tratamento médico para duas jogadoras que se lesionaram neste ano e ainda não receberam qualquer tipo de assistência.
A equipe já havia sido adicionada à lista de Transfer Ban da FIFA devido a débitos financeiros com outra ex-atleta.
Linha do tempo
No dia 08 de outubro, foi publicado nesta mesma postagem que as atletas e outros colaboradores da equipe feminina do Avaí Kindermann estavam com mais de três meses de salários atrasados. Apesar de o clube ter quitado um mês de pagamentos em débito do elenco masculino e de funcionários que trabalham na sede em Florianópolis , o mesmo não ocorreu em Caçador e não havia previsão para tal.
Segundo fontes internas, os pagamentos dos salários das atletas em 2025 foram realizados quase todos (com exceção do mês de março) em atraso e de forma parcelada. O último pagamento havia ocorrido em agosto, relacionado ao mês de junho, após as atletas se recusarem a entrar em campo na partida contra o Palmeiras, pela 3ª fase da Copa do Brasil Feminina. Em setembro, a equipe também ficou uma semana de greve sem treinar em decorrência desses atrasos, porém, sem sucesso.
A comissão técnica não recebe há quatro meses, e os fornecedores e prestadores de serviço não recebem há seis meses. Como consequência, 11 atletas e quatro membros da comissão técnica deixaram o clube, incluindo o preparador físico. Até o fim da temporada, o elenco contava com 16 atletas e apenas três pessoas na comissão (a treinadora Carine, a fisioterapeuta Fabiana e o preparador de goleiros Jair).
Além disso, duas atletas estão esperando para realizar cirurgia em lesão de ligamento cruzado anterior do joelho (LCA), uma delas desde o mês de abril.
As jogadoras publicaram uma nota de repúdio, informando a situação da modalidade na equipe e exigindo tanto o pagamento dos salários atrasados como a transparência do clube diante do caso. A última folha salarial venceu no dia 10 de outubro, foi prometido o pagamento parcial no dia 20, o que não aconteceu.
A situação de salários atrasados que estamos enfrentando é inaceitável e reflete um descaso histórico com a modalidade que não pode mais ser tolerado.
Confira a nota completa a seguir:

Créditos: Carol Bernardi.
Uma das atletas nos disse que a situação é desesperadora e que a equipe não tem condições psicológicas para continuar treinando e disputando partidas até que o cenário se regularize. Segundo ela, as profissionais sempre abraçaram a ideia e querem fazer parte da história do clube, mas a falta de transparência relacionada a esses pagamentos é uma variável que as desanima. Um dos membros da comissão técnica chegou a utilizar o próprio dinheiro para comprar itens de higiene pessoal para as atletas, devido aos atrasos financeiros.
As jogadoras do Avaí Kindermann chegaram a anunciar que só disputariam a final do Campeonato Catarinense, diante do Criciúma, após o recebimento de dois meses de salário. A partida aconteceu no dia 26 de outubro, às 15h, no Estádio Salézio Kindermann, em Caçador/SC. A equipe venceu a decisão por 4 a 2 na disputa de pênaltis, após as condições impostas terem sido cumpridas.
Nessa mesma semana, a equipe se pronunciou, por meio de uma postagem no Instagram, informando toda a situação salarial desde o início do ano, além de necessidades básicas das atletas, como alimentação e higiene pessoal. Elas destacaram as inúmeras promessas de pagamento realizadas e não cumpridas pelos presidentes das duas entidades e pelo diretor da equipe feminina. Confira a postagem completa neste link.

Dessa forma, após a finalização das atividades propostas para a temporada, as jogadoras retornaram para suas casas, e 15 dessas ex-colaboradoras participam do processo na Justiça do Trabalho que solicita o reconhecimento do vínculo empregatício e o pagamento dos salários atrasados e de outros benefícios em questão (13º salário, férias e FGTS, além da assistência médica para duas jogadoras lesionadas).
Diante da ação, também solicitam a responsabilização pessoal de quatro membros das diretorias dos clubes (Rafael Assunção Sardá, Jonas Estevão da Silva, Júlio César Heerdt e Bruno Ribeiro Comicholi), já que o atraso salarial impediu as atletas até de adquirir itens básicos de higiene.
É importante salientar que as atletas possuem contrato de prestadoras de serviço apenas, o que não garante os direitos concedidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). No Brasil, a modalidade feminina não exige a anotação em Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS), ficando a cargo dos clubes a concessão desses benefícios.
A equipe do PFF entrou em contato com a diretoria e a presidência do clube, mas não obteve resposta. Estamos à disposição do clube para maiores esclarecimentos.
O clube
O Avaí Kindermann encerrou sua participação no Brasileirão Feminino A2 na 7ª posição em seu grupo, sem classificações para a fase seguinte do torneio, foi eliminado pelo Palmeiras na 3ª fase da Copa do Brasil e foi campeão catarinense. No torneio estadual, o Leão da Ilha venceu as seis partidas da primeira fase, marcando 46 gols e não sofrendo nenhum, eliminou o Marcílio Dias na semifinal e venceu o Criciúma na grande decisão.
Com tradição no futebol feminino brasileiro, a equipe entrou na modalidade em 1996, tendo conquistado 16 títulos do Campeonato Catarinense e a Copa do Brasil de 2015, mas passou a receber menos investimentos desde o falecimento de seu idealizador, Salézio Kindermann, em 2021. Como resultado disso, na nova gestão, a equipe foi rebaixada ao Campeonato Brasileiro A2 em 2024, após terminar o campeonato na vice-lanterna.
Transfer Ban
O AvaÍ Kindermann foi adicionado à lista de Transfer Ban da FIFA no dia 07 de outubro devido a débitos financeiros com a atacante uruguaia Julieta Morales, hoje atleta do Internacional. A medida impede a equipe de registrar novas jogadoras em âmbito nacional e internacional, até que os valores devidos sejam integralmente quitados. A decisão pode perdurar por até três janelas de transferência consecutivas. No Brasil, outra equipe que está na lista é o Real Brasília, desde janeiro deste ano.

Créditos: Reprodução.

