A Seleção, a base, e o futuro do futebol feminino brasileiro

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Na seleção masculina se busca um padrão de jogo desde a categoria de base. Na feminina nós temos a falta de padrão como padrão.
Na seleção masculina se busca um padrão de jogo desde a categoria de base. Na feminina nós temos a falta de padrão como padrão.

Por: Duany Khydac  e Fernanda Picorelli 

O Futebol feminino vem crescendo nos últimos anos. É um crescimento aliado a qualidade, uma melhora expressiva na parte tática e também na parte técnica. Conseguimos perceber mais equipes se tornando candidatas a título, se tornando grandes potências, ao mesmo tempo em que conseguimos perceber uma queda na diferença entre as equipes mais fortes e as mais fracas. Quando um esporte começa evoluir é possível que grandes equipes deixem de ser tão grandes e perigosas, não por perderem características que já mantinham, e sim por não adquirir novas.

O Brasil é uma seleção forte dentro do universo do futebol feminino. Sempre foi. Mas, ultimamente, notamos uma queda. Não desaprendemos o futebol que já sabíamos, porém paramos no tempo, e outras seleções chegaram ao nosso nível. É importante notar que essa “pausa” na evolução não é um mistério. Tudo começa na categoria de base.

Hoje nós começamos a cuidar das seleções femininas na categoria sub 17. Não existem competições oficiais sub 17 no Brasil, mas temos uma seleção montada na base do “catadão”. Partindo disso, já não se pode esperar muito do time, todavia fica mais complicado ainda quando notamos como as comissões técnicas da seleções femininas são montadas. Simplesmente não existe cobrança, não existe exigência. Raramente conhecemos as pessoas que assumem essas comissões. Eles chegam (sim, eles, porque mais raro ainda é a presença de mulheres) assumem a equipe e ficam lá meses sem apresentar qualquer tipo de melhora.

As equipes de base do Brasil tem um padrão hoje: A falta de tática. São times que vivem a base do chutão, sem presença de meio campo, sem troca de estilo de jogo. É bico pra frente e vamos ver no que dá. E, na maioria das vezes, não dá em nada. Perdemos jogos, campeonatos e agora estamos deixando de ser grandes no futebol feminino. Não é fácil competir com equipes que possuem e trabalham muito a categoria de base e fica pior quando não tratamos o pouco que temos com respeito. Nas olimpíadas perdemos jogos porque não tínhamos variações táticas. O Brasil era pragmático, sonolento. Do outro lado, existiam equipes que, mesmo não tendo o mesmo talento na bola ou recursos como as brasileiras, capricharam a tática e nos deram um verdadeiro baile. Não adianta habilidade sem organização e aplicação.

Me questiono muito sobre coisas que acontecem no futebol feminino. Para ser técnico da seleção masculina existem muitas exigências, cobrança, cuidado. Na seleção feminina nós não sabemos nem quem realmente é o técnico, e o quanto que esse realmente sabe sobre a modalidade.  Na seleção masculina se busca um padrão de jogo desde a categoria de base. Na feminina nós temos a falta de padrão como padrão.

A única certeza, hoje, é que ao fim de mais um mundial, essas meninas retornam para o Brasil sem ter um campeonato pra jogar. E isso já é dificuldade suficiente. Não precisamos que a CBF nos proporcione mais obstáculos. Precisamos de trabalho real no futebol feminino, pessoas que entendam de futebol feminino, gente preocupada com o crescimento da modalidade. Não é a questão apenas de pegar profissionais que já tenham experiência no masculino, por exemplo. O futebol feminino tem uma dinâmica e particularidades que o diferem do masculino em vários aspectos. É preciso que o técnico compreenda o esporte, conheça as táticas e as jogadoras de outras seleções, ou seja, faça uma preparação cognitiva antes de assumir o cargo.

É preciso coragem para largar o osso, mas se vocês realmente querem o melhor para o futebol feminino, está na hora de sair. Perdemos Mundial Sub-17, Sub-20, Olimpíada, Copa do Mundo e Algarve, caímos muitas posições no ranking e hoje não somos mais tão temidas. O que falta pra CBF entender que não está dando certo? Porque pra quem acompanha a modalidade, isso já está muito claro. O planejamento mal feito e a inércia que rodeia o meio do futebol feminino vai deixando transparecer a suas marcas, e pouco a pouco vai evidenciando o obscuro futuro que vai caminhando o esporte no Brasil.

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