ALEMANHA: ENTRE A TRADIÇÃO E A DESCONFIANÇA EM MAIS UMA OLIMPÍADA

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Em seu retorno as Olimpíadas após oito anos de ausência, a tradicional seleção alemã tenta o inédito ouro olímpico em meio as desconfianças sobre a qualidade do time. 

A Alemanha jamais conquistou um ouro olímpico e busca, no Rio de Janeiro, esse feito. (FOTO: DFB)
A Alemanha jamais conquistou um ouro olímpico e busca, no Rio de Janeiro, esse feito. (FOTO: DFB)

Por: Bruno Bezerra

bruno@planetafutebolfeminino.com.br

Faltam menos de 70 dias para o início dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro e a DFB Frauen, após ausência nas Olimpíadas de Londres em 2012, voltará a disputar o torneio de futebol feminino buscando o inédito ouro olímpico, único título de expressão que não fora conquistado pela seleção feminina da Alemanha, oito vezes campeã europeia e duas vezes campeã mundial em toda sua história.
A Alemanha disputou quatro edições do Torneio Olímpico. Eliminada na primeira fase em Atlanta, 1996, a Frauen Mannschaft conquistaria três medalhas de bronzes de forma consecutiva, em Sydney (2000), Atenas (2004) e em Pequim (2008). A seleção ficaria fora das Olimpíadas de 2012 devido a eliminação nas quartas de final da Copa do Mundo em 2011 pela equipe do Japão, na chamada Tragédia de Wolfsburg, onde a seleção favorita a título, seria eliminada pela competente e “azarona” seleção japonesa. Com a classificação da Suécia e da França, além do fato da seleção britânica ser sede do torneio, as semifinais daquela edição do Mundial (lembrando que a qualificação olímpica europeia no futebol feminino é feita via Copa do Mundo, onde as três melhores seleções garantem vaga), a Alemanha ficou pela primeira vez fora dos Jogos Olímpicos em 2012.

WOLFSBURG, GERMANY - JULY 09: Karina Maruyama of Japan scores their first goal during the FIFA Women's World Cup 2011 Quarter Final match between Germany and Japan at Wolfsburg Area on July 9, 2011 in Wolfsburg, Germany. (Photo by Scott Heavey/Getty Images)
Karina Maruyama foi a autora do gol da tragédia alemã em Wolfsburg. Eliminação precoce e ausência nas Olimpíadas de 2012. (FOTO: Scott Heavey/Getty Images)

Nesse especial para o Planeta Futebol Feminino, faremos uma breve análise do atual momento da DFB Frauen, assim como perspectivas para as Olimpíadas.

  • Transição com uma lenta renovação.

Desde a Eurocopa da Suécia, em 2013, Silvia Neid tem promovido uma lenta e gradual renovação do time germânico, em relação a geração que disputou a Copa do Mundo em 2011. Vale lembrar que boa parte da imprensa criticou a equipe de 2011 devido ao excesso de veteranas no elenco, dando poucas chances as jogadoras campeãs do mundo sub-20 em 2010, também na Alemanha. A lateral Bianca Schmidt, a atacante Alexandra Popp, a goleira Almuth Schult e a meio campista Kim Kulig, foram as únicas campeãs mundiais na base que jogaram o mundial pela seleção principal no ano seguinte.

O início da renovação se deu em 2012, após a Copa do Mundo sub-20 no Japão. Os principais destaques foram acumulando experiência jogando pela equipe de base, além de seus clubes na Frauen Bundesliga, chegando com um enorme entusiasmo a equipe principal. O processo deu resultado e em 2013, a Alemanha levantou seu oitavo título europeu diante da Noruega. As meias Melanie Leupolz, Dszenifer Maroszán, Sara Däbritz, entre outras, passaram a ser figuras carimbadas na seleção, porém, alguns pilares com atletas campeãs do mundo em 2007, entre elas Simone Laudehr, Melanie Behringer, Nadine Angerer e Saskia Bartusiak, foram mantidas.

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Experiência e novas jogadoras são um panorama da seleção alemã. (FOTO: FIFA)

Muitas das campeãs mundiais há 9 anos ainda são presentes no atual elenco tiveram papel fundamental para o crescimento das novatas da geração de 2013 e também da geração de 2014, que vinha de um título mundial sub-20 no Canadá, onde jogadoras como a atacante Pauline Bremer e a propria Däbritz, foram destaque.

Porém, o futebol apresentado na Copa do Mundo não foi condizente com o que se esperava. A Alemanha não convenceu diante de rivais tradicionais como Estados Unidos, França e ainda perderia para a Inglaterra, equipe com retrospecto bem desfavorável em relação as germânicas, na disputa do terceiro lugar.

  • Facilidade nas Eliminatórias da Euro e dificuldade contra grandes seleções
Na Copa do Mundo em 2015, a camisa alemã pesou diante de rivais tradicionais. (FOTO: framba.de)
Na Copa do Mundo em 2015, a camisa alemã pesou diante de rivais tradicionais. (FOTO: framba.de)

Após o fracasso no mundial, veio as Eliminatórias da Euro 2017, na qual a Alemanha não tem tido nenhuma dificuldade, tanto que já se garantiu no torneio a ser disputado na Holanda daqui há 2 anos. Contra adversários que na teoria são mais fracos, a Alemanha faz a sua obrigação vencendo e vencendo bem, o grande problema está diante de clubes mais fortes, como foi visto na She Believes Cup.

Após jogar mal e vencer França e Inglaterra no torneio disputado nos Estados Unidos, veio então o confronto contra as donas da casa, valendo o título. Mais uma vez, uma atuação ruim da Alemanha culminou em mais um fracasso diante da tradicional rival. Um time que se mostrava sem iniciativa e que demonstrava um certo medo ao pressionar as atuais campeãs mundiais.


No grupo F no Torneio de Futebol Feminino dos Jogos Olímpicos, as alemãs enfrentarão a seleção do Zimbábue, Austrália e Canadá, um grupo que teoricamente é favorável a liderança germânica no grupo, o que poderia culminar em um confronto contra o time que vier como segundo colocado do grupo G, composto por Estados Unidos, Nova Zelândia, França e Colômbia, nas quartas de final.
Ótimo momento vivido pela seleção da Austrália, campeã do Pré-Olímpico da Ásia, tradição de uma experiente equipe do Canadá, atual medalhista de bronze nas Olimpíadas e a incógnita chamada Zimbábue. Esse será o panorama inicial para a Alemanha buscar o inédito ouro olímpico.

  • Lista sem surpresas e oito a serem cortadas
Lista sem surpresas. (FOTO: DFB)
Lista sem surpresas. (FOTO: DFB)

A lista provisória de 26 jogadoras Silvia Neid não apresentou nenhuma grande surpresa em relação as convocações recentes. A imensa maioria atua em clubes da Alemanha, composta por grande parte de jogadoras de Bayern, Wolfsburg, FFC Frankfurt e SC Freiburg, as quatro melhores equipes da temporada 2015/16 da Frauen Bundesliga. Mittag e Bremer, que atuam no futebol francês (por PSG e Lyon, respectivamente) foram lembradas também, assim como a zagueira Henning do Arsenal Ladies.

Da lista, quatro jogadoras serão cortadas de início, restando 22 atletas, sendo que 4 estarão na lista de espera no caso de lesões e 18 estarão nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

  • Como joga essa Alemanha?

Silvia Neid mudou algumas peças, mas sempre manteve o padrão tático com a seleção alemã: 4-2-2-2 ou 4-2-3-1 foram as variações utilizadas pela experiente técnica alemã. Fisicamente forte defensivamente e que se preocupa bastante em ocupar o meio campo, mas que também gosta de usar as laterais como alternativa para subida ao ataque.

Provável seleção alemã que será a titular na Olimpíada. Variando entre o 4-2-2-2 e o 4-2-3-1.
Provável seleção alemã que será a titular na Olimpíada. Variando entre o 4-2-2-2 e o 4-2-3-1.

No mundial do ano passado, Nadine Angerer era a capitã e goleira titular. Com sua aposentadoria, Almuth Schult herdou a 1 da Mannschaft e tem tido atuações bem questionáveis com a camisa alemã. Fez ótimas partidas contra França e Inglaterra, além de não ter sofrido nenhum gol nas Eliminatórias europeias até agora, porém, diante dos Estados Unidos pela She Believes Cup, sofreu falhou no gol do USWNT, além de diversos gols questionáveis sofridos com a camisa do seu time, o Wolfsburg. Schult é a goleira de confiança de Neid e precisará mostrar regularidade, tal qual mostrava Angerer. Laura Benkarth, capitã do SC Freiburg, tem sido a primeira suplente de Schult e assim como a titular, também não mostrou confiança quando substituiu a goleira do Wolfsburg.

Schult e Benkarth serão muito provavelmente as opções de Silvia Neid nos Jogos Olímpicos. (FOTO: DFB)
Schult e Benkarth serão muito provavelmente as goleiras titular e reserva da Alemanha nos Jogos Olímpicos. (FOTO: DFB)

Pelas laterais, Maier e Kemme são as donas da posição de modo absoluto. Sem uma lateral esquerda de ofício, Hendrich é uma opção para as duas laterais e além dela, Pauline Bremer, que foi bastante utilizada dessa forma no Lyon na temporada 2015/16 pode ser uma opção para a lateral também. Bremer foi a autora da jogada do gol de Ada Hegerberg na final do torneio continental e para muitos, a alemã foi a melhor jogadora em campo atuando pela ala direita. Havia a opção de Jennifer Cramer pela lateral esquerda, mas esta não se recuperou de lesão e nem mesmo foi convocada as Olimpíadas, já na zaga, a nova capitã Saskia Bartusiak e Annike Krahn são remanescentes da geração de 2007. Experientes, fortes fisicamente, porém, lentas e isso é um fator que preocupa a treinadora alemã. Bartusiak tem 33, enquanto Krahn tem 30 anos, tendo como opções Babett Peter (28) e Josephine Henning (26).

A dupla de zaga da Alemanha mostra experiência e firmeza, mas ao mesmo tempo peca em aspectos como lentidão em alguns lances. (FOTO: DFB)
A dupla de zaga da Alemanha mostra experiência e firmeza, mas ao mesmo tempo peca em aspectos como lentidão em alguns lances. (FOTO: DFB)

Para o meio campo Lena Goessling e Simone Laudehr são jogadoras indispensáveis no 11 inicial de Silvia Neid. A volante defensiva do Wolfsburg já teve como parceiras na dupla de volância com Melanie Leupolz, Melanie Behringer e Dzsenifer Marozsán. No mundial, Leupolz foi abaixo das expectativas ao substituir Kessler, já Behringer, conseguiu formar boa dupla com Goessling, porém era necessário colocar uma volante que saísse mais para o jogo e não duas jogadoras mais recuadas e foi aí que Marozsán entra como uma ótima opção para esse setor, por sua qualidade no passe e na saída de jogo. Quatro ou cinco jogadoras no meio campo são a grande questão a ser pensada por Neid até os Jogos Olímpicos. Já no ataque, Anja Mittag, Alexandra Popp e Mandy Islacker são as donas do setor. Popp tem assumido o papel de centroavante com a aposentadoria de Sasic, mas tem Islacker como uma ótima opção para mesma. Mittag por sua vez, fez temporada bem mediana pelo PSG, mas ainda assim figura como opção no 11 inicial alemão, principalmente jogando aberta pelos lados de campo.

Maroszán, Goessling e Mittag são jogadoras de suma importância na seleção e com certeza terão papel de destaque time alemão. (FOTO: DFB)
Maroszán, Goessling e Mittag são jogadoras de suma importância na seleção e com certeza terão papel de destaque time alemão. (FOTO: DFB)
  • A última chance para Silvia Neid
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Neid nunca conquistou uma Olimpíada e vê nos Jogos do Rio, a grande oportunidade para fechar seu ciclo com chave de ouro. (FOTO: ZDF)

Eurocopas, Algarve Cups e Copa do Mundo. Silvia Neid conquistou praticamente todos os títulos possíveis em mais de uma década no comando da DFB Frauen. A ausência do ouro olímpico incomoda bastante a treinadora e também a imprensa alemã.
O mais curioso é que o time jamais conquistou nem mesmo a medalha de prata. Em 4 participações em Jogos foram 3 medalhas de bronze (2000, 2004 e 2008), além de uma eliminação na primeira fase em 1996, primeira vez que tivemos o futebol feminino nos Jogos Olímpicos.
Neid anunciou antes do mundial de 2015 que deixaria a equipe ao final de seu contrato, em setembro de 2016 e Steffi Jones, ex-zagueira da seleção alemã nos anos 90, seria a nova treinadora. Jones já vem sendo auxiliar técnica de Neid desde o final da Copa do Mundo no Canadá e vem adquirindo experiência para comandar a seleção alemã com o fim da era Neid, que após muitas glórias e também muitas críticas tem a chance de conquistar a “cereja do bolo” em sua carreira como treinadora.
Evidente que a seleção alemã, mesmo com alguns problemas citados anteriormente, vem como favorita na briga para o ouro olímpico no mês de agosto. Porém, não basta apenas um bom elenco ou uma boa técnica para vencer um torneio equilibrado e difícil como os Jogos Olímpicos e sim mostrar em campo a força associada a tradição da Alemanha dentro do cenário do futebol feminino.

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