O DECLÍNIO DO JAPÃO

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O que levou as Nadeshiko a perder a vaga nas Olimpíadas, segundo a imprensa japonesa

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Fora do Rio 2016, a era mais vitoriosa do futebol feminino japonês terminou de forma melancólica / Foto: Kaoru Watanabe

Por Tiago Bontempo

 

Norio Sasaki comandava a seleção feminina do Japão desde dezembro de 2007. Foram 125 jogos, com 80 vitórias, um título mundial (2011), uma prata olímpica (2012) e um vice mundial (2015). Indiscutivelmente o período mais importante da história do esporte no país. Porém, esse período terminou com um vexame, a eliminação no Pré-Olímpico. Mesmo com a vantagem de jogar em casa, as Nadeshiko terminaram em terceiro lugar e as duas vagas da Ásia nos Jogos do Rio de Janeiro ficaram com China e Austrália. Afinal, o que teria causado um resultado tão desastroso? A imprensa japonesa publicou algumas matérias explicando o que aconteceu nos bastidores da seleção nos últimos anos. Confira:

 

“Estão me fazendo de idiota”, diz Sasaki
A queda começou há quatro anos. Em Londres 2012, todos lutaram no limite de suas forças acreditando que aquele seria o último torneio. Foi como uma batalha de vida ou morte, recompensada com a inédita medalha de prata. Mas depois disso a situação começou a tomar rumos obscuros. Era esperada a saída do técnico Sasaki depois das Olimpíadas, mas ele surpreendentemente decidiu continuar. Aí começaram a surgir discordâncias.

Jogadoras e técnico se distanciaram. Enquanto elas reclamavam da frieza de Sasaki, ele teria feito comentários como “Vocês não ouvem o que eu falo” ou “Estão me fazendo de idiota.” Até a forma de se direcionar ao treinador mudou. Ele não era mais chamado “Norio-san.” “Elas me chamam de ‘Norio’. Não há respeito.” (nota: no Japão é visto como desrespeito chamar uma pessoa mais velha ou de posição superior apenas pelo primeiro nome)

Havia pouca comunicação entre eles. “Poderia ser diferente se ele pelo menos me dissesse a razão para não me convocar”, disse uma atleta. Até mesmo Sawa não recebeu nenhum comunicado quando ficou um ano sem ser chamada para a seleção. As próprias jogadoras contestaram a convocação para o Pré-Olímpico e os comentários de Sasaki de que Ando “não estava nas melhores condições”. Foram mais de oito anos com o mesmo 4-4-2, as mesmas jogadoras e as mesmas táticas que os outros países da Ásia estudaram à exaustão. (Sponichi)

 

O vazio deixado por Sawa
Parando para pensar, já havia um prenúncio da eliminação. No fim do ano passado, o técnico Sasaki recebeu a informação de que Sawa ia se aposentar. Ele se traiu ao revelar que pretendia levá-la ao Rio. Esperava que ela só penduraria as chuteiras depois das Olimpíadas. Utsugi, sua substituta imediata que vinha de uma grande Copa do Mundo, não tinha condições de jogo no Pré-Olímpico. Kawamura cometeu um erro crucial contra a China.

Mais do que pelo futebol, o grande problema foi o buraco deixado pela líder espiritual do grupo. Sawa era a única capaz de preencher o espaço que separava a capitã Miyama das jogadoras jovens. Líder dentro de campo, Miyama era audaciosa o bastante para ignorar até ordens de Sasaki. Uma certa jogadora jovem disse com um sorriso amargo: “Ela é rígida demais. Todas ficam intimidadas, não podemos falar nada para ela.” Miyama, por outro lado, dizia que as novatas eram “moles demais”. A distância entre elas se aprofundou.

Sawa era quem aparava as arestas dessa relação. Mesmo no banco, ela foi primordial para unir a equipe na Copa de 2015 e também no apoio psicológico a Iwabuchi, que quase foi cortada por lesão. No primeiro torneio sem ela, Ogimi, que herdou a camisa 10, criticou as companheiras diretamente para a imprensa após a derrota contra a China. “Algumas não foram dignas de entrar em campo.” Mas ela não disse isso para as próprias jogadoras, o que deixou algumas descontentes. “É o tipo de coisa que ela tem que dizer diretamente.”

A lenda Sawa era uma presença insubstituível. Sem ela, houve momentos em que o erro de uma jogadora se tornava um constrangimento. “Peça desculpas na frente de todos”, diziam. A queda era inevitável. (Nikkan Sports)

 

Por que a transição de gerações não aconteceu
“Será que eu poderia rejeitar uma convocação para a seleção?” Uma certa jogadora jovem perguntou isso a um funcionário de seu clube. Não foi apenas uma. “Não passam a bola para mim”, algumas reclamavam. Depois das Olimpíadas de Londres, sem que ninguém percebesse a seleção acabou se tornando um lugar que as jogadoras não queriam ir.

O fracasso na transição de gerações foi um duro golpe para elas. Enquanto a média de idade dos outros países no Pré-Olímpico era de 24 anos, a das Nadeshiko era 27. As veteranas exauriram as energias com o calendário apertado de cinco jogos em dez dias. “Sasaki disse: “Vamos ter muita pressão nessa fase eliminatória, mas eu quero que as veteranas façam uso de sua experiência.” Mas o plano não deu certo.

Das 20 jogadoras, 14 tinham participado da Copa do Mundo de 2011. Apenas seis vieram depois. Havia muitos nomes de talento nas Jovens Nadeshiko que conquistaram o terceiro lugar no Mundial de 2012, por que elas não foram integradas no time principal?

Uma das razões eram os fortes laços que uniam o grupo de 2011. As jogadoras jovens não só precisavam de tempo para se adaptar ao estilo de jogo, mas também se sentiam isoladas durante as reuniões, as conversas nos vestiários e o convívio em geral, oprimidas com a atmosfera do senso de união que apenas os soldados que enfrentaram a árdua escalada para o topo do mundo tinham. Algumas jogadoras entraram em má fase técnica e psicológica depois dos treinamentos onde elas não conseguiram se soltar e mostrar suas habilidades.

É claro que não podemos ignorar o fato de que jogadoras de personalidade forte e com capacidade de superar essas circunstâncias não apareceram. Sasaki não tinha escolha a não ser apostar nas veteranas de 2011, as mesmas caras que ficaram velhas, cansadas e foram dissecadas pelos adversários. Essa eliminação era um resultado inevitável que aconteceria cedo ou tarde. (Sports Hochi)

 

Pelo menos três jornais diferentes que trouxeram histórias parecidas. Sasaki reclamou da forma como a imprensa repercutiu os acontecimentos. “A maioria das matérias fala sobre boatos ao invés de analisar a eliminação. Por mim não há problema, mas é uma pena para as jogadoras”, disse em entrevista coletiva ao final do Pré-Olímpico. Apesar de ter se responsabilizado pelos resultados, ele não isentou suas atletas. “O que eu posso dizer é que cada uma das jogadoras precisa ter mais precisão. Senão, considerando o quão competitivo o esporte está se tornando a nível mundial, não teremos chance”, disse o ex-técnico que já confirmou sua saída; ele deve voltar para o futebol masculino e assumir um cargo na direção do Omiya Ardija.

O futuro, no entanto, é promissor. Asako Takakura é vista como a sucessora natural de Sasaki e tem conseguido ótimos resultados nas categorias de base, o que a credencia como pessoa ideal para conduzir a renovação na seleção principal. A decisão da JFA pode demorar a sair, pois Takakura ainda tem pela frente a preparação para a Copa do Mundo Sub-20, que começa em novembro.

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